segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A gente SUBMERSA: um poema teatral


A gente SUBMERSA: um poema teatral

Encontramos numa das obras de Walter Benjamin a seguinte frase: “A forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência”. Podemos pensar essa frase do Benjamin para discorrer acerca da conformação de um tipo de sociedade que se assenta sobre uma determinada base material e o modo como esta interação interfere, pelo seu condicionamento, na transformação social e antropológica; fabricando novas figuras de subjetividade, figuras que estão relacionadas com o ver, sentir e fazer, emergindo daí certos tipos de coletividades. 

Nesse sentido, talvez, nenhum outro sistema social veio a interferir tanto, ou melhor, alterar tanto algumas das mais íntimas e pessoais características da existência cotidiana como a modernidade. Os modos de vidas produzidos pela modernidade desvencilharam os indivíduos de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que não tem precedentes. Sendo inerente ao ambiente moderno o movimento. Entretanto, tal ambiente não se constitui sem contradições. Marx e Engels já chamavam atenção para o fato da modernidade ser em si um paradoxo na medida em que ela por um lado une, transforma, integra, por outro, ela nos despeja, a todos, num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno, nesse sentido, é fazer parte de do universo no qual, como disse os autores do Manifesto Comunista: “Tudo o que é sólido desmancha no ar”.

A modernidade edificou um espaço-tempo próprio, o que significou submeter outros espaços tempos à sua maneira. Dito de outra forma, seu processo, utilizando-se de certa racionalidade invocada para ordenar o espaço tempo, acaba expulsando todos aqueles que pelo modo como habitam a terra e se relaciona com o mundo de maneira distinta a ofertada por ele, são considerados inconvenientes ou mesmo ameaçadores.

O espetáculo A gente SUBERSA em cartaz no Teatro do Incêndio, parece ir à contramão desta dinâmica. A primeira cena já dá o tom e a batida do que vai ser o espetáculo. Evocando a presença de outra temporalidade.

O enredo é conduzido por três personagens, figuras alegóricas da sabedoria popular, que atravessam os tempos seguindo pelo mundo contando suas histórias e as histórias do mundo. Histórias que eles viveram? Histórias que eles inventaram? Não importa. O que vai ficando claro durante o percurso é cada vez mais a impossibilidade da existência dessas figuras assim como o que elas representam enquanto forma de vida no ambiente que é próprio da modernidade, a saber, a metrópole, a cidade.

Ambiente que se organiza pelo trânsito, pela iminência das coisas, das relações, pelas vidas sem relatos. Pelos “não lugares”: espaços de circulação, diametralmente oposto ao lar, à residência, ao espaço personalizado. Aliás, muito bem representado na cena do o coro de rosto em série... Também de um corpo, de uma unidade, de uma não singularidade. O indivíduo da metrópole de uma sociedade sem relato é só, mas junto com outros, onde a relação se dá de maneira contratual representada por símbolos: cartão de crédito, bilhete de metrô, documentos – careteira de motorista ou qualquer outro. Uma identidade sem pessoa. Um ser sem presença.

Aqueles que carregam, ou melhor, aqueles que são a materialidade de uma sabedoria, de um tempo que não o tempo da racionalidade técnica, mas de um tempo da natureza, do tempo da criação de vidas que habitam, de distintos modos, ou vivem uma temporalidade incerta, uma vida na força de um ritual, para esses não resta nada nesse mundo a não ser a invisibilidade. Todavia, se não é nesse mundo que sua força vai ser presente (isso é forte na peça) é na evocação da sua ancestralidade: no uso de máscaras, na pintura do corpo, como se fosse uma segunda pele que habita aquela primeira, que veremos a elevação da corporeidade a uma outra dimensão. É possível encontrar armas durante a fuga, em meio ao próprio campo de batalha.

A peça parece ser um grito e, por conseguinte, um combate a esses não lugares e essas formas de vida sem pessoa. A um sistema que vive de saltos para frente num ritmo vertiginoso sem deixar raízes, que obriga meramente a sobreviver por um dia. Uma rebelião contra o esquecimento de onde se vem, contra a sociedade de massa que se edifica pela colonização do imaginário e do corpo. Contra um processo civilizatório que age sobre o corpo fazendo-o volta-se para si ao invés de abri-lo para o mundo. Ora, não podemos esquecer que uma das formas do poder agir sobre o sujeito é tornar o corpo sozinho, o fazer falar a língua dos códigos que nele se inscrevem.

O trabalho parece querer ser, por meio da sua investigação estética cultural, um terreno de contestações sobre as condições da vida, dessas vidas distintas do modelo engendrado pela modernidade capitalista.

A peça é um elogio à “inconstância selvagem”: entendido aqui como a potência do sensível, da força ritualística da sabedoria. Como um conjunto de partes heterogêneas que não se deixam unificar. É uma recusa à modernização dos sentidos, isto é, uma recusa a predicados, a formas fixas. Mais próximo, portanto, de um sentir, de um emergir-se ao mundo, de um estar dentro e não diante. 

A peça é um canto ao corpo. Ao corpo como profusão do sensível. A um corpo que se inclui no movimento das coisas e se mistura a elas com todos os seus sentidos. O trabalho do grupo é uma ode a um estado vibrante que faz passar o indivíduo ou o coletivo de um estado a outro. Não por acaso a peça é um cântico, uma dança, uma viagem fora dos códigos que reduz o corpo a representações. É uma viagem em direção a um “corpo puro” isto é, “incodificado”, possuidor de energias livres que retorna à natureza para desempenhar o papel de permutador de código outros.

Muito próximo, aliás, a um pensamento de um teatro da crueldade ou o teatro ritualístico de Artaud. Pois o teatro do Incêndio é um teatro do espaço poético onde as imagens matérias são equivalentes às imagens das palavras. O estado poético que emerge das cenas do A gente SUBMERSA é próxima uma poesia concreta, isto é, algo é produzido objetivamente através da presença ativa em cena. É um teatro que fala diretamente ao espírito. Trata-se, nesse sentido, da exposição do teatro por si mesmo, como um arte no espaço e no tempo, com corpos humanos e todos os recursos que o teatro inclui e o faz ser uma obra de arte total.

Tudo isso só sendo possível graças à dimensão antropofágica muito forte no grupo, haja vista a incorporação musical que vai das matrizes populares brasileiras e africanas até o pop estadunidense de Michael Jackson ou o funk das metrópoles. Há no grupo uma investigação estética cultural que leva a uma certa brasilidade revolucionária.
A peça é uma “luta dissimilação”, que enseja a criação de distancias em relação a certos modos de vida, empregando para isso os instrumentos da diferença linguística, ritual, histórica e de atitudes.  

Artaud dizia que o verdadeiro teatro era aquele que fazia escorrer pelas brechas da cultura ocidental, com suas formas petrificantes, as sombras que guardam nelas as vibrações da vida. Parece ser o que convoca a encenação de A gente SUBMERSA. Nesse sentido podemos retomar ao início, à citação do Benjamin e pensar que uma saída para criação de uma percepção outra esteja no espaço das artes. De uma arte engajada com a vida, com o mundo.

Enfim, a peça está em cartaz e pode ser vista no Teatro do Incêndio que fica na Rua Treze de Maio no Bexiga.  Todo sábado às 20h e Domingo às 19h.

O trabalho é muito mais do que tudo isso, ainda mais pela sua força artística. A minha escrita é uma traição ao espetáculo. Vão ver e saberão porque.


Vale conferir e muito. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Bug Chaser: Coração purpurinado Ou a Vida na Berlinda


Bug Chaser: Coração purpurinado Ou a Vida na Berlinda

Até aonde vai um corpo na luta para expressar-se na sua potência, no seu inacabamento, no seu brilho, na constituição de uma vida livre das amarras, da imobilidade, subvertendo assim, a docilidade e a disciplina, o controle da macro-engrenagem do poder capitalista que opera pela sujeição social e pela servidão maquínica?

Até aonde consegue ir um corpo que explode a medida, ou melhor, até aonde o corpo suporta ir, num Estado que ordena um tipo de sociedade e que se edifica se reproduz pelo exercício de poder que toma a vida como um fato, natural, biológico, ou como diria Giorgio Agamben como vida nua, como sobrevida, como uma vida exposta à ação imunizante protetora do poder, uma vida sem qualquer proteção no que se refere a um poder que dirige, manipula e deixa morrer, quando não mata!

O que pode um corpo ou suporta - que fique claro que não é o corpo da norma, da vida qualificada - numa sociedade que age pela privação de alguns enquanto concede a outros o acesso ao que seria por direito (e aqui não se refere ao direito jurídico) comum a todos e todas, portanto, à partilha desse comum, ao pertencimento, a reciprocidade?

O que estão fazendo com a vida. Com as vidas paralelas que se expressam pela experimentação, que divergem de um modelo imposto, que por ser tão radical na sua singularidade não podem ser reunidas e nem parte de um mesmo lugar e tão pouco devem ser copiadas, ser um exemplo, o que não significa que elas devam ser exterminadas, ou colocadas sob correção suas condutas através de um saber-poder médico e biológico que está a serviço de uma auto-afirmação da parcela daqueles que se intitulam homens de bens, detentores de uma moral que legitima suas ações e que tratam tudo aquilo que divergem deles como doença.

Parece-me que todas essas questões e mais algumas percorrem o espetáculo Bug Chaser: coração purpurinado. Um espetáculo que está em cartaz no Teatro Experimental e que tem como idealizador, dramaturgo e ator Ricardo Corrêa e como diretor Davi Reis, além de outros profissionais que juntos com estes materializaram um belo trabalho que vale muito ser visto.

Um trabalho que tem na narrativa fragmentada, com flashes que trazem para cena espaços e tempos diversos, sua força. O que, aliás, pode ser visto como uma resistência à totalização operada pela sociedade que o próprio trabalho coloca em questão. Escancarando, assim, a existência de tempos e espaços diversos no interior desse tempo-mor. Fugindo da exclusão, próprio da totalização, para pensar por associações e pela multiplicidade.

Se a força da dramaturgia está na utilização do fragmento, a da direção com sua escrita cênica estar na intensidade, nas velocidades, nas cores. No que extrapola o real da realidade em proveito de um real da cena, sem, no entanto, deixar de trazer para cena o trânsito entre um real e outro. Estar no jogo e “coreografia da cena”.

O que é posto no espetáculo como estando em perigo, me parece, é a liberdade dos modos de vidas singulares, entendida aqui como um estilo de vida, como uma estética da existência, como associações livres que dão vida a um comum que diverge de um formato político moral do Estado e seus representados, a saber, uma burguesia oca, podre, ressentida.
O espetáculo conta com uma violência que é necessária ao entendimento da transgressão em relação ao controle da sexualidade - pensada aqui pela sua modulação mais do que pela sua negação. Controle que demarca, desse modo, o destino de corpos que já não podem se enquadrar na norma sexual e política.

O espetáculo ilumina as técnicas políticas que inscrevem e classificam corpos em relação aos ordenamentos hierárquicos e economias da vida e morte, isto é, os ordenamentos biopolíticos que produzem corpos e lhes atribuem lugares, sentidos num mapa social.  

O Estado através da sua racionalidade centrada sobre a questão da vida: conservação de um estilo de vida, seu desenvolvimento e gestão, criou diversos mecanismos e instituições normalizadoras, tornando a vida um tribunal sob o qual todas as vidas que não estivessem em relação ao modelo seriam julgadas culpadas. Pior, já nasceriam com a marca da culpa, devedoras de algo que elas nem sabia o que era, mas que deviam carregar consigo para saber que eram diferentes. No campo de concentração esses diferentes pela desigualdade eram os mulçumanos, era aqueles que carregavam marcado no corpo um número.

Se no campo de concentração eles resolviam pela exterminação através das câmaras de gás, aqui eles resolvem pelo tratamento daqueles que o Estado considera parasitas, que uma vez infiltrados no corpo social podem levar arruína da sociedade, por isso do Estado formar seus médicos ou conferir a si próprio a competência de médico, capaz, assim, de restituir a saúde da sociedade removendo as causas do mal, expulsando os germes que os transportam ou mesmo incluindo, desde que se comportasse em relação à norma.

A quarentena nada mais é que o processo de imunização para que o sujeito possa retornar à sociedade sem, com isso, coloca-la em risco tumultuando seus valores, embaralhando seus mecanismos de partilha. 

Uma vida que insurja por outras vias, que não as ofertadas pela sociedade com seu Estado médico vigente, serão foco de controle e extermínio. Uma vida que se pauta pela amizade, por outros valores, pela transgressão das normas instituídas, é uma vida a ser combatida, segundo, essa sociedade que cada vez mais se mostra doente.

Nesse sentido, o trabalho ao falar homossexualidade como foco de controle por parte da sociedade em que vivemos, fala da violência contra as vidas que resistem aos enquadramentos de uma sociedade que quer tornar a vida uma sobrevida. A violência contra a população LGBTTTQIA, a população negra, a mulher é um fato. Com a violência física vem a simbólica como estratégia de inculcar subordinação e reforçar uma distinção ontológica entre seres humanos, o que qualifica uns em detrimento de outros na escala de importância para tal sociedade que esse Estado defende.

O espetáculo é uma obra instigante para pensar tudo isso e mais outras coisas que esta reflexão não tocou e nem deu conta.

Enfim, vão e façam suas próprias reflexões.

O espetáculo está no Teatro Experimental na rua Barra Funda. Toda quarta e quinta. 21 horas.


domingo, 1 de outubro de 2017

A reflexão acerca da política que a cientista política Belga Chantal Mouff faz muito me interessa. Ainda mais quando ela busca explicar a distinção entre Política e Político. Para a autora a política tem como menção o campo empírico, os fatos da ação política, ao passo que o político está relacionado à própria formação da sociedade. O político representaria um espaço de poder, conflito e antagonismos: “entendo por ‘político’ a dimensão de antagonismos que considero constitutiva das sociedades humanas, enquanto entendo por ‘política’ o conjunto de práticas e instituições por meio das quais uma ordem é criada, organizando a coexistência humana no contexto conflituoso produzido pelo político”. Para autora não existe a possibilidade de uma democracia radical sem a possibilidade do político; dos conflitos e dos antagonismos que se exerce nas esferas públicas, no espaço social, assim como, não existe a possibilidade de tal democracia sem a política, ou seja, sem instituições que possam criar, como mediadores desse conflito, espaços de coexistência.

Para Mouff, portanto, não devemos imaginar a política democrática em termos de consenso e reconciliação, mas em nos esforçar para imaginar e criar uma esfera pública vibrante, o que ela chama de “agonística”, de contestação, na qual diferentes projetos políticos hegemônicos (fixação de discursos) possam se confrontar. Porém, para que esse projeto seja possível devemos fugir da esfera moral, para aonde comumente o político é jogado, e adentar nas categorias políticas, isto é, esquerda e direita e não bem ou mal.

A autora, nesse sentido, defende um pluralismo agonístico por entender que a questão principal das práticas democrática não é eliminar o poder e sim constituir formas de poder mais compatíveis com os valores democráticos. Ela busca nos gregos o conceito de Agon para pensar esse pluralismo, pois para os gregos agon abarca vários sentidos, em particular o de luta, de competição tanto num plano verbal como físico. O modelo agonístico da democracia postulado, pela autora belga, defende que a política democrática consiste em transformar o antagonismo social em agonismo e, desse modo, transformar a luta entre inimigos em lutas entre adversários.

Todavia, me parece que o que vem sendo exercitado no nosso contexto é tudo menos tal pensamento. No Brasil o político vem sendo tomado de assalto pela figura do gestor e a política vem sendo instrumento de eliminação do outro. Em nome de certo consenso práticas autoritárias são legitimadas por tais instituições. Setores que historicamente são politizados e com isso contribuem com projetos em direção a uma democracia radical vem sofrendo todo tipo de censura, de violência. O Estado que deveria ser o mediador desse conflito, como está na nossa constituição, vem se ausentando de tal responsabilidade e, pior, por meio da figura do seu agente, incitando essa violência. Para isso, basta ver o último vídeo do gestor da maior cidade da América Latina reclamando certo limite da arte. Tendo como base de ataque o moralismo e não um pensamento racional crítico, que deveria ser o modo como o agente do Estado deve inserir-se numa discussão quando sendo ela de interesse público.

Nessa diretriz o que Estado vem fazendo é elogiar certas faculdades e rejeitar outras. Prescreve, dessa forma, condutas desejáveis e veda as “indesejáveis”. Em nome de uma perspectiva moral o Estado vem por meio do ordenamento jurídicos orientando a ação do sujeito, privilegiando certos valores e desprestigiando outros.  Decidindo sem o devido cuidado quais modos de vida devem ser estimuláveis bem como modos de criação e de fazer.


O que torna a ação artística ainda mais importante desvelando ainda mais o seu caráter político. E, portanto, necessária e urgente no mundo em que vivemos. Pois como entende Mouffe a ação artística é da ordem agonística já que opera discursivamente na dimensão da ordenação, reprodução ou MODIFICAÇÃO SOCIAL. Quando da modificação a operação não é sem riscos. 

domingo, 24 de setembro de 2017

A ciência é uma forma de conhecimento, de saber que tem como objetivo fornecer explicações teóricas profundas e abrangentes, com soluções o mais adequada possível para problemas gerados por ela própria. Ela, nesse sentido, tem uma função expansionista. Para alguns cientistas, sejam eles da exata ou das humanas, sua expansão significa a busca por um mundo melhor, um mundo que as pessoas possam viver melhor, que as descobertas possam contribuir para erradicar os males sociais etc. Mas para que as descobertas sejam possíveis, ela precisa de liberdade. Pois a mesma com sua racionalidade crítica derruba teorias formuladas antes para poder avançar. Por esse ângulo, de algum modo ela cria mundos, estabelece perspectivas.

Outra forma de conhecimento é o da arte. Na exata medida em que apresenta mundos distintos do seu. Ela como o OUTRO, ao encontrá-la, proporciona uma nova relação, um novo agenciamento. Ela, nessa perspectiva, exerce sua força pelo mundo de possíveis que carrega, nas possibilidades que o encontro com ela faz surgir: expande o individuo; expande a vida. Ela também precisa de liberdade. Pois também derruba forças conservadoras, ataca valores velhos. Ela como a ciência necessita de instituições políticas democráticas que se comprometam em salvaguardar a liberdade, em especial, a liberdade de defender a liberdade, e assim prevenir contra as formas de tirania.

Pensei tudo isso, por conta da peça que fui ver hoje, a saber, AMARELO DISTANTE. Uma peça que me apresentou o OUTRO: o escritor Caio Fernando Abreu. Um trabalho sensível. Que me tocou pelo mundo (com suas possibilidades) que surgia da vida do Caio Fernando, fazendo com que eu pensasse o meu. Que me tocou por escancarar como a história do mundo ao se encontrar com a história de cada um coagula certo individuo, deixa suas marcas. O teatro, talvez, tenha esse quê de alteridade inerente a ele. Outra coisa que chama muita atenção é o poder da palavra. O poder da palavra poética ressoando pelo espaço vazio do teatro e dela emergindo os mundos do Caio, seja ele o privado ou o público. O teatro com seu palco vazio, mas preenchido pela força da palavra. Pela força sensível da encenação ao priorizar a palavra e a partitura corpóreo-cênica. Pela força do trabalho do ator que dá vida ao mundo Caio. Saí com a sensação que, talvez, o mundo ande surdo para poesia, para as vidas paralelas, para aquelas vidas que abrem um risco de água que pode vir a ser um rio.
Como diz o texto da peça: “se a realidade nos enche com lixo, a mentalidade deve nos encher com flores” (acho que era mais ou menos isso).


Enfim, não conheço muito bem a obra e vida do Caio Fernando, mas gosto de pensar por meio do espetáculo nessas vidas que nos apresentam formas outras de estar no mundo. Para quem quiser conferir o espetáculo, ele tá o TUPS até o próximo fim de semana. Sábado às 20h e Domingo às 18h.

domingo, 17 de setembro de 2017

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: entre uma coisa e outra há o meio


                                            (quadro: Operários; de Tarsila do Amaral)

Dizer que a esquerda e a direita se unem no reacionarismo, é Jogar a “água da bacia, com criança e tudo”, ou seja, é não conseguir distinguir uma coisa da outra. O que exige, no mínimo, colocar em perspectiva o conceito bem como as dimensões. E aqui vou tomar como perspectiva a definição de Gilles Deleuze, para quem a esquerda se caracteriza por pensar sempre de fora para dentro, nunca do umbigo para fora. Nesse sentido, uma se caracteriza pela forma conservadora (de certa forma de vida) e excludente, mesmo porque quando inclui, inclui excluindo a multiplicidade, as singularidades; inclusão sem resíduos, perspectiva unilateral, reproduzindo-se pela homogeneização, pelo padrão, que não foi e não é constituído pela maioria numérica, mas por uma minoria maior econômico e politicamente. Outra coisa são forças políticas que criticam essa ordem estabelecida, identificando-se com lutas por transformações socializantes. Sendo uma multiplicidade fragmentária de corpos necessitados e excluídos, uma fratura intensiva: nem pode ser incluído no todo e nem pertencer ao conjunto que está desde sempre incluído. O que requer pensar o lugar de onde estão falando e sobre o que estão reivindicando. Uma coisa é uma minoria não numérica pretender ser ouvida, tornando sua pretensão um grito, grito, aliás, que incomoda porque demonstra, entre outras coisas, a indignidade de falar pelos outros. Os que reivindicam têm sua fala e sua potência. A questão é saber se os mecanismos que são utilizados pela esfera reacionária para tornar inaudíveis esses gritos, essas pretensões, não são de alguma maneira, empregados por parte daqueles que muitas vezes habitam uma dimensão mais a esquerda, mas que vive numa espécie de esquizofrenia ou infantilização, fruto (não sem luta, me parece) de uma violência simbólica de um sistema que se reproduz nas instituições dominantes com seus aparelhos de objetivação.


Numa esfera o que é posto é a eliminação da multiplicidade, na outra é a democratização, que é mais do que acesso, é também a participação constituinte, por isso conflitosa, mas também criativa porque exige a criação de espaços e tempos que comportem essa multiplicidade, exige o encontro, o debate, a troca. Está-se falando, nesse sentido, para além dos indivíduos isolados, ou seja, está-se falando de uma estética da existência enquanto formas de vidas: maneiras de fazer, ver e ouvir. Modos de encontros e, por isso, de dissenso, e tudo que certa esfera reacionária não quer é dissenso, dissidentes. 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017



Um exercício de imaginação.

E Se. O Se tem relevância e sua importância, que o diga o sociólogo Gabriel Tarde: "Dizer se não é apenas lícito; é útil, é necessário; nenhuma lei teria sido descoberta e formulada pelo homem se não fosse dotado de faculdade de dizer se". E se ao final de 2018 um candidato de esquerda (nem falo que vai ser o Lula, pois dada a atual conjuntura isso parece ser cada vez mais distante), ou melhor, um centro-esquerda chegar a vencer as eleições (por mais que isso hoje seja distante pensar), ele governa? E mais, como chegará o Brasil ao final do governo ilegítimo? Com uma lógica de uma política estritamente econômica, o que gera insegurança das pessoas e dos bens, acarretando fenômenos dispendiosos e mais custos com policiais, pois precisa assegurar que essas pessoas não venham a se revoltarem. Pois basta passarmos os olhos em qualquer jornaleco veremos a taxa de desemprego no país é enorme (com perspectivas ainda mais assustadoras em relação à população jovem), para não falar daqueles que perderam seus benefícios (que diga de passagem é quase nada) retornando a um estado de vulnerabilidade social; o que em muitos casos significa um entendimento por parte dessa parcela da população de não se ver como cidadão, lançando-o num estado de destrutibilidade psicossocial de fortes implicações e marcas, levando-o buscar, infelizmente, em outros lugares formas de conforto e realizações. Se adequando ao estatuto de uma sobrevida, ao invés de se revoltar. Mas para quem não tem nem o que comer, como terá força para se revoltar? Para quem sempre foi estigmatizado, criminalizado, como lutará contra um Estado policialesco? E não podemos esquecer que com a violência física vem a violência simbólica. A produção de certo saber e sua circulação produzindo a doxa da naturalização e conformismo. Toda uma violência estrutural exercida, mas que se apaga no emaranhado do jogo político-econômico e nas narrativas construídas por ele. E Quem dirá em sã consciência que isso é uma construção social e uma escolha que busca privilegiar alguns em detrimento de outros, ou seja, que a involução de um Estado para alguns (no seu aspecto penal, de sacrifício das funções sociais: saúde, educação, cultura, habitação, assistência etc) é necessário para que outros gozem de um Estado que mantêm as garantias sociais, no caso os privilegiados, "suficientemente cacifados, para quem possam dar garantias e seguranças" são escolhas para melhor exercer a dominação? Quem dirá? Ah, os “esquerdopatas”. Os comunistas, os imorais, os que são contra a família, propriedade e tradição, os que vivem uma ilusão (segundo alguns especialistas, que são os mesmos que faltaram em tal aula) da existência do regime militar como um regime de exceção, portanto, uma ditadura. 

Nesse sentido, o Se (como o possível) vai perdendo terreno se estreitando nos caminhos construídos das possibilidades dadas anteriormente. O Se, no caso de chegar a ser eleito parece bem distante, e se (olha ele aí) vier a acontecer de chegar, parece bem provável que não consiga governar, pois o projeto em desenvolvimento por certo grupelho não permitirá. O projeto para o Brasil que eles têm é outro. É um projeto com benefícios para poucos. A cultura e a política nisso são determinantes. Desse modo, parece interessante averiguar que o ataque hoje não parece ser apenas a um ou a outro personagem, mas a uma forma de Estado mais social, a uma forma de realidade social mais próximo daquilo que um dia sonhamos ser igualdade. O Estado em voga, o Estado com prevalência econômica é o Estado neoliberal, é o Estado do abandono dos terrenos das ações sociais. A sua prevalência se deve a "um trabalho de doutrinação simbólica do qual participa passivamente os jornalistas, simples cidadãos, e, sobretudo, certo número de intelectuais" e ignorantes das artes. Além, claro, da violência em forma de genocídio contra parte da população, parte não, vamos dá nomes: a população negra e os povos indígenas. A esquizofrenia dos três poderes que hoje opera no país não é nada fora do lugar e nem, talvez, a anunciação da morte, e sim, uma técnica de governo com objetivos e bem claros.

Um salto. Não sei se foi no Walter Benjamin ou Mauricio Blanchot que li sobre uma passagem da Odisseia de Homero, que um dos autores, interpretava a travessia de Ulisses pelo lago das sereias. Na passagem Ulisses Manda os marinheiros (o povo, escravos?) colocarem cera nos ouvidos para que não ouçam o lindo canto das sereias e, desse modo, evitem se jogarem ao mar por conta de tanta beleza. E pede que o amarre. Para ele ouvir o canto e usufruir de sua perfeição. A metáfora é boa pensar o comportamento dos nossos defensores dos bons costumes. Hannah Arendt tem um texto belíssimo sobre a cultura que também pode ilustrar o comportamento de tais defensores. Nele a autora dedica-se um tempo refletindo sobre a figura do Filisteu Burguês. Grosso modo, é aquela figura que não sabe lidar com a cultura, a não ser quando a mesma torna-se mercadoria; algo a título de consumo e, por conseguinte, fadada ao desaparecimento. Sendo que eles podem viajar e usufruir.



As forças reacionárias são muitas. Mas devemos manter o Se vivo, penso. E se perguntarmos o que há de político na política e com isso buscarmos outras formas de exercê-la? Talvez assim, outro possível possa vir a existir. Pois como pensa os aberrantes: “um pouco de possível senão sufoco”.  

segunda-feira, 19 de junho de 2017



Pensamento de uma madrugada em estudo

Dias atrás fui ver o espetáculo Antígona que estava no SESC Consolação e uma frase do espetáculo ficou martelando na minha cabeça, mas que também não lembro de certeza se era a que segue “eu crio pontes para encontrar o outro e assim derrubar barreiras”. Saí de lá com essa frase que, de novo, não tenho certeza se era assim mesmo e com a sensação ainda mais forte da importância da cultura para o viver-junto. Claro que a sensação não vem só desse espetáculo, mas de todos os outros e da pesquisa por outras formas de representação da vida em sociedade, que bem ou mal me servem de ferramentas para poder refletir acerca do viver no mesmo barco, isto é, na mesma sociedade. Levando em conta a dificuldade que é esse viver-junto.

Roland Barthes tem uma imagem bem ilustrativa num dos seus livros quanto ao viver junto. É mais ou mais assim: Uma pessoa X um dia está na janela da sua casa observando a paisagem urbana e os transeuntes. Quando de repente fixa seus olhos na caminhada de uma mãe com seu filho que é puxado pela mão. A mãe caminha rápido demonstrando certa pressa, como se tivesse hora marcada para chegar num compromisso. O filho pelo contrário, caminha como se contemplasse a paisagem pela primeira vez, num estado de deriva.

A força da mãe é maior que a do filho. Ela o puxa pela mão, ele querendo ou não adapta-se ao ritmo da caminhada dela. O poder nos diz Barthes, passa pela disrritmia, a heterorritmia. É pondo juntos dois ritmos diferentes que se criam profundos distúrbios. Justificando as mais cruéis repressões. Que poderiam ser evitadas se não fosse próprio de um poder político querer impor por diversas maneiras um ritmo único, o seu ritmo. No entanto, o autor também chama atenção para a experiência da idiorritmia, ou seja, aquilo que é próprio, que foge do código, do modo como o sujeito se insere no código social (ou natural). Uma espécie de movimento aberrante em prol de novas existências. Mas também um o entendimento da relação de poder como uma relação de força, portanto, como algo que possível de não se deixar capturar, que permite construir linhas de fuga, criar outras maneiras de viver-junto, de tecer a vida. É fácil? Não. Requer muito trabalho. Exige-se muita luta, exige-se que a força do imaginário aja sobre a maneira de viver, de se instituir, de fazer e de se fazer das coletividades social-históricas – e, mais particularmente, a maneira de integrar o indivíduo à vida coletiva. Entendendo o integrar aqui não como um mero ato anônimo ou de justaposição. Mas o imaginar e o concretizar certo co-pertencimento pela articulação, pelo esforço de imaginar a articulação de diversos grupos, indivíduos, movimentos que em si lutam pelas suas demandas individuais, mas que podem imaginar estratégias que os unam contra aquela força que os segmentam para os oprimirem, que os individuam para melhor controlar. De maneira a formar uma coletividade de singularidades concreta que rivalizará e terá força suficiente para constituir instituições que não mais reproduzam a desigualdade; produzindo e reproduzindo valores que enaltece um estilo de vida individual e coletivo que é posta a trabalhar a favor de um sistema que escraviza seja pela venda da força de trabalho, seja pela cooperação de um imaginário que está a serviço do mercado, do lucro, do capital.

Aqui podemos, talvez, falar da política cultural e da política da cultura. Pois temos que ter consciência da cultura como fato político. Que o mundo da cultura tem exigências, obrigações, poderes de natureza política. Maneira pela qual temos que tratar de saber qual a direção dessas exigências, a direção desses poderes. Uma política cultural no governo não é isenta de cálculo, de diretrizes, programas, imposições que provêm muitas vezes de políticos que são ali a representação de um sistema econômico, o representante dos interesses desse sistema. E que por conta disso se coloca na maneira como participa da vida política, como um obstáculo para o desenvolvimento da cultura, pois isso poderia significar a contestação da sua própria figura enquanto profissional daquele setor bem como do sistema que representa.

É dessa contestação que nasce uma regra de conduta para este homem de cultura que foi imaginado, experimentado, esculpido, dado uma forma. Uma regra de agir na sociedade de modo identificar os obstáculos para o desenvolvimento da cultura e assim poder removê-los. Comprometendo-se com a vida da política, com a dimensão política da vida. O que não se confunde com a profissão de político. A política que ele se faz portador é a expressão autônoma e irresistível da cultura na vida social, ou seja, uma política feita com fins para cultura, para o desenvolvimento da cultura e não feito por políticos para fins políticos, isto é, para fins de políticos com interesse econômicos, para fins da política como polícia; controle e regulação das condutas.

Uma política da cultura como defesa da liberdade. “Da promoção da liberdade e, portanto, uma defesa e uma promoção das instituições estratégicas da liberdade”. A consciência do valor da liberdade é fundamental para o desenvolvimento da cultura e, por conseguinte, do pensamento e da formação da sociedade. Renunciar a essa certeza é colocar em evidencia os princípios do retrocesso cujas consequências verificam-se mundo a fora. 

A liberdade no sentido aqui também do “não impedimento”. De uma cultura livre de impedimentos. Impedimentos estes que podem ser “tanto materiais, psíquicos ou morais: os primeiros colocam obstáculos ou dificultam a circulação e a troca das ideias, o contato dos homens de cultura; os segundos colocam obstáculos ou dificultam ou tornam completamente perigosa a formação de uma convicção segura através da falsificação de fatos ou da falácia de raciocínios, se não diretamente através de pressões de vários tipos sobre a consciência”. O que nesse sentido contribui para manutenção da ordem simbólica que é a condição do funcionamento da ordem econômica.

A política da cultura é uma posição de abertura em direção às posições filosóficas, ideológicas, mentais diferentes. É um abrir-se para o outro, que não necessariamente significa ser o outro uma pessoa. Pode ser uma ideia, uma sensação, um afecto. Ou mesmo algo que não se sabe ao certo o que é a princípio, não se consegue nominar, mas que se conserva pelo corpo, o lançando a experimentar encontros. Conexões outras que não as ofertadas pela ordem da cultura da polícia. É o criar pontes para o encontro, para assim derrubar os muros, os obstáculos. É derrubar os significados que são leis e que não se deixam pensar fora do seu decreto, ou seja, é preciso criar novos significados, novos esquemas representativos imaginários permitindo vislumbrar uma vida fora da cristalização vazia e pobre que a mesma se encontra constantemente capturada.

Talvez, a arte seja um dos caminhos possíveis para isso na exata mediada em que ela provoca um choque e por isso mesmo um despertar. Sua intensidade e sua grandeza estando indissociáveis de um abalo, de uma oscilação do sentido estabelecido. Aliás, isso muito se aproxima do pensamento do filósofo francês Jacques  Rancière para quem a luta coletiva por emancipação nunca se dá separada de uma nova experiência de vida e de capacidade individual. Para ele a emancipação social passa necessariamente por uma emancipação estética, por uma ruptura com as maneiras de sentir, de ver e falar. Passa pela construção de novas capacidades de articulação micropolítica de modos de vida capaz de proporcionar uma rede de produções estéticas como um princípio de imaginação ativa.

Não existe transformação social sem criação cultural. O que nos faz entender um pouco a estratégia da política cultural em vigor.  E o fato da cultura ser um campo muitíssimo importante de disputa. Tornando-se necessário o desvendar das raízes sociais pelas quais os interesses políticos e econômicos com seu objetivo prático de manutenção da ordem vigente e dos privilégios daí decorridos, operam uma naturalização desta realidade. A disputa é pelo imaginário, pelo sensível, pelo que daí se coagulará em formas de vidas. Em formas sociais.